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A importância da espiritualidade nas escolas pós-covid-19.

A EDUCAÇÃO PÓS-PANDEMIA.

August 12, 2020


(English Below/ Español abajo)

Em primeiro lugar eu quero dizer que vejo esta pandemia do covid-19 como o início de uma revolução de consciência. E que estamos diante de uma oportunidade muito rara, talvez até mesmo única, de fazermos diferente; de escolhermos novos rumos enquanto sociedade humana. Mas para sabermos que passo dar e para qual direção, precisamos de muita sinceridade com nós mesmos ao responder a pergunta: eu estou feliz? É este o mundo em que eu quero viver? É este o mundo que eu quero para os meus filhos?

Essa pandemia tem mostrado muito de nós. Tem possibilitado aferirmos nossos potenciais, mas principalmente nossas limitações em diferentes áreas da vida. E considero que a área mais deficiente seja a espiritual.

Poderia dizer até mesmo que a crise global que vivemos manifestada na política, na economia, na ética... é essencialmente uma crise espiritual. No epicentro da crise está a inconsciência a respeito da nossa verdadeira identidade. Quem eu sou? O que estou fazendo aqui neste mundo? Para que eu acordo de manhã? Qual é o sentido da vida?

Mesmo que não nos façamos essas perguntas objetivamente, essa crise espiritual fica muito evidente em nossa inabilidade de lidar com nossos medos, com nossas frustrações, com nossas perdas, nossas diferenças, nossas raivas, nossas dificuldades diante da impermanência das coisas.

O medo da morte, da escassez, a crueldade que tem emergido tão intensamente, especialmente no trato com quem pensa diferente.

Na minha visão, a espiritualidade é a base da democracia e dos direitos humanos que são os pilares que podem assegurar nossa evolução como espécie.

Então, qual é a importância da espiritualidade nas escolas, especialmente após o covid-19? Eu diria que se trata de uma importância vital. Essa importância vem sendo sinalizada já há bastante tempo.

Como disse o pensador André Malraux ainda em 1955: “O século XXl será espiritual ou não será”. Eu concordo plenamente com essa visão.

Se não trabalharmos firmemente com o propósito de desenvolver inteligência espiritual, primeiramente para nossos educadores e na sequência para nossas crianças e jovens, sinceramente não vejo horizontes para a nossa sociedade.

Quando falamos de espiritualidade estamos falando de consciência, que nos leva a questionar nossa identidade e onde de fato está a felicidade... O que nos move?

Então a segunda pergunta que faço é: estamos preparados para ensinar uma criança a ser feliz? Estamos preparados para criar um futuro próspero, harmônico e abençoado? Se nós não temos isso hoje, como é que teremos isso amanhã? Como vamos compartilhar aquilo que não temos? Essas são questões complexas.

O que eu vejo que temos hoje é um conhecimento secular baseado em um sistema de crenças e obviamente em evidências científicas, mas que tem como base a crença principal de que a felicidade está fora de nós e que pode ser comprada. Veja bem a seriedade disso. Então o conhecimento acaba sendo para especializar a mente humana para que ela tenha a capacidade de comprar a felicidade de diferentes maneiras. Seja criando riquezas para comprar com dinheiro a felicidade, seja para exercer domínio sobre o outro, pois temos uma outra crença de que se subjugarmos o outro, de que se formos superiores, vamos receber o que precisamos.

Então vivemos um engano e nosso sistema atual de ensino se baseia nesse engano. Assim, o primeiro insight é que se faz necessária uma descontinuidade do modelo atual, um verdadeiro rompimento em relação ao denominador comum que motiva o aprender e o ensinar.


Se queremos um futuro diferente, nós temos que provocar uma descontinuidade porque o hoje é o resultado de ontem.

Da forma como temos feito, o que conquistamos? Vamos fazer uma análise objetiva racional e sincera: conquistamos muitas coisas, especialmente o domínio da matéria. Dominamos o átomo em algum grau. Temos sondas espaciais explorando as galáxias. Temos sondas internas explorando as profundezas das células. Temos acompanhado uma evolução tecnológica surpreendente ao longo dos últimos anos e isso é só o princípio. Lendo as mais recentes publicações científicas vemos que tem descobertas incríveis chegando para os próximos anos, devido especialmente ao avanço na área da informática que nos leva para a inteligência artificial e para o domínio da nanotecnologia. 

Mas a questão é: conhecemos a nós mesmos?

Quem em nós está apertando o botãozinho que tem acesso a esse conhecimento todo? Quem em nós está fazendo o uso deste conhecimento e para quê? Estamos formando pessoas com um caráter que possibilite fazer um bom uso desse conhecimento?

O que nos move é um sentimento de solidariedade? Estamos buscando criar uma cultura de paz e de amor, de prosperidade altruísta? O objetivo é encontrar a felicidade que não depende de nada lá fora?

Não. Sabemos que ainda não. Com algumas poucas exceções. E por que? Porque esse conhecimento que é a ciência da autorrealização (ou inteligência espiritual) que mostra que a felicidade está dentro e como acessá-la ainda é para bem poucos.

Estamos fazendo movimentos para ganhar escala. Por exemplo: no Brasil tivemos um avanço tremendo quando conseguimos colocar na nova base nacional comum o desenvolvimento das habilidades socioemocionais. Já está na base a necessidade de desenvolvermos autoconhecimento.

Considero um avanço gigantesco. Foi um trabalho duro para se conseguir isso. Abrimos um caminho, mas até isso se transformar em realidade prática, e se é que vai mesmo se transformar em realidade, depende de nós. Eu diria que depende mais objetivamente dos profissionais da área da educação. São vocês, educadores, que realizarão a tarefa de colocar ou não essa lei em prática.

Eu coloco uma dúvida. Digo: “se é que vai se transformar em realidade”, porque eu sei que o medo dessa transformação é muito grande. Por mais tóxico e destrutivo que o sistema de crenças seja, ele nos dá uma sensação de segurança. A quebra com um sistema ao qual nos acostumamos nos deixa muito vulneráveis.

Mudança não é fácil. Especialmente mudanças estruturais. Veja o exemplo de um adulto que toma consciência de um condicionamento, de um mal hábito, de um vício... não precisa de um tremendo trabalho para se descondicionar? E por que é tão difícil mudar uma mente adulta? Por que é tão difícil ensinar uma mente adulta a não ter medo da vida? A não sofrer de ansiedade? A se relacionar de forma construtiva? Porque ela foi programada na infância. Depois que o programa foi instalado... reprogramar dá muito trabalho.

Então, é claro que a educação para as nossas crianças e jovens é uma oportunidade a mais que temos de evitar esse desgaste que, hoje, nós adultos estamos tendo para descondicionar as nossas mentes.


Então eu vejo que a educação baseada em valores espirituais é uma oportunidade de descontinuar a procriação da miséria. E miséria em todos os sentidos.

Mas essa educação precisa compreender que a liberdade é o valor máximo e que a criança já chega com uma sabedoria que precisa ser respeitada e acolhida. A criança nasce amando, confiando e com uma visão clara do que ela veio fazer no mundo. Mas como nós, adultos com a mente condicionada, vamos conseguir respeitar e criar o espaço para que essa criança possa revelar essa sua visão, essa sua sabedoria, esse amor, essa confiança que poderia então provocar um futuro diferente?

Esse é o nosso desafio enquanto pais, educadores, enquanto co-criadores de uma nova realidade. Esse é um tema em que todos nós deveríamos nos debruçar com muita atenção, porque nós estamos falando do futuro da humanidade. Se antes nós nos matávamos com espadas e depois com armas de fogo, agora além dessas, nos matamos até mais com essa tecnologia toda nas mãos de pessoas sem consciência espiritual.

Lembre-se: se você quer ter um resultado diferente, você tem que mudar seu padrão. Porque se mantém o padrão, nós vamos continuar nos destruindo. 

Para isso, precisamos de coragem para inovar. Como disse, estamos em meio a uma revolução de consciência. E penso que o principal aspecto dessa revolução é a coragem de nos espiritualizarmos de uma maneira laica. A espiritualidade é laica. Esses dias ouvi de uma amiga: a psicologia não alcança o espiritual. E o espiritual normalmente se engancha na religião.

A psicologia tem seus limites e atua na esfera pessoal; cada um tem a sua... porque cada um tem a sua personalidade, história e sua maneira de lidar com sua biografia... a religião cada um tem a sua... mas a espiritualidade é universal. É a mesma para todos. O amor é um. A paz é uma. O que possibilita criar união e respeito são os mesmos valores.

E o nosso desafio hoje é abrirmos esse caminho e construirmos isso.


E tudo começa com autoconhecimento.

Sabemos que o autoconhecimento possibilita, entre outras coisas, liberdade, autoconfiança e nos coloca no caminho da ascensão em todos os sentidos. E que ele começa com a auto-observação. Com a capacidade de nos auto-observarmos.

Então como é que a auto-observação não faz parte do currículo? Como a meditação não está  no currículo? Da mesma forma, precisamos incluir no currículo mediação de conflitos, gerenciamento de emoções, domínio da mente... e consequentemente: valores democráticos, direitos humanos, a compreensão a respeito do que de fato representa o meio ambiente para as nossas vidas... e a arte, que é o elemento que conecta todos esses saberes. Tudo isso faz parte da consciência espiritual.

Então, para prepararmos as crianças e até mesmo os adultos para o futuro após a covid-19, eu sinto que em primeiro lugar precisamos criar espaços para que eles sejam eles mesmos.

Para que possam expressar sentimentos e para que possamos ajudá-los a elaborar esses conteúdos. Nisso a psicologia e a filosofia podem ajudar. Precisamos acolher essas crianças e jovens, pois muitos não estão ainda nem mesmo compreendendo o que está se passando. E a fuga deste cenário de guerra em que estamos vivendo é a internet, que por sua vez é um campo minado.


Mas entendo que só podemos dar aquilo que temos. Como vamos dar acolhimento se nós mesmos estamos quebrados por dentro?

Por isso, penso que o primeiro passo para a implantação desse projeto fundamental de espiritualizar a nossa educação seja criar um espaço para que possamos cuidar de nós mesmos, educadores. Precisamos fortalecer os educadores. Prepará-los e capacitá-los adequadamente para esse novo ciclo de evolução da humanidade.

Proponho que criemos espaços para dialogar e fomentar ideias, como estufas de projetos desta natureza. Pois é disso que precisamos. Um espaço para refletirmos juntos abertamente, tendo a coragem de colocar tudo na mesa e especialmente tendo a humildade de reconhecer que não temos todas as respostas, que não sabemos como fazer, e vamos juntos pouco a pouco aprendendo a criar esse mundo que queremos viver. 


***


POST-PANDEMIC EDUCATION.

The importance of spirituality in schools post Covid.

First of all, I want to say that I see this covid-19 pandemic as the beginning of a revolution of consciousness. And that we are faced with a very rare, perhaps even unique, opportunity to do differently; to choose new directions as a human society. But in order to know what step to take and in which direction, we need a lot of sincerity with ourselves when answering the question: am I happy? Is this the world I want to live in? Is this the world I want for my children?

This pandemic has shown us a lot. It has made it possible to assess our potentials, but mainly our limitations in different areas of life. And I consider that the most deficient area is the spiritual.

I could even say that the global crisis we are experiencing manifested in politics, economics, ethics ... is essentially a spiritual crisis.  At the epicenter of the crisis is the unconsciousness about our true identity. Who Am I?  What Am I doing here in this world? What do I wake up for in the morning? What is the meaning of life?

Even if we don’t ask ourselves these questions objectively, this spiritual crisis is very evident in our inability to deal with our fears, our frustrations, our losses, our differences, our anger, our difficulties in the face of the impermanence of things.

The fear of death, of scarcity, the cruelty that has emerged so intensely, especially in dealing with those who think differently.

In my view, spirituality is the basis of democracy and human rights, which are the pillars that can ensure our evolution as a species.

So, what is the importance of spirituality in schools, especially after covid-19? I would say that it’s of vital importance. This importance has been signaled for a long time.

As the thinker André Malraux said in 1955: “The 21st century will be spiritual or it will not be”. I fully agree with this view.

If we don't work hard with the purpose of developing spiritual intelligence, first for our educators and then for our children and young people, I honestly don't see any horizons for our society.

When we talk about spirituality, we are talking about consciousness, which leads us to question our identity and where happiness really is ... What moves us?

So the second question I ask is: are we prepared to teach a child to be happy?  Are we prepared to create a prosperous, harmonious and blessed future? If we don't have it today, how are we going to have it tomorrow? How are we going to share what we don't have? These are complex issues.

What I see we have today is a secular knowledge based on a belief system and obviously on scientific evidence, but which is based on the main belief that happiness is outside of us and that it can be bought. Look closely at the seriousness of this. So knowledge ends up serving to specialize the human mind so that it has the ability to buy happiness in different ways. Whether creating wealth to buy happiness with money, or to rule over the other, since we have another belief that if we subjugate the other, that if we are superior, we will receive what we need.

So we live in a mistake and our current education system is based on that mistake. Thus, the first insight is that it’s necessary to discontinue the current model, a real break with the common denominator that motivates learning and teaching.

If we want a different future, we have to cause a discontinuity because today is the result of yesterday.

As we have done, what have we achieved?  Let's do an objective rational and sincere analysis: we have achieved many things, especially the mastery of the matter. We’ve mastered the atom to some degree. We have space probes exploring galaxies. We have internal probes exploring the depths of the cells. We have followed a surprisingly technological evolution over the last few years and this is just the beginning. Reading the latest scientific publications, we see that there are incredible discoveries arriving for the coming years, especially due to the advancement in the area of information technology that leads us to artificial intelligence and to the domain of nanotechnology.

But the question is, do we know ourselves?

Who in us is pressing the little button that has access to all this knowledge? Who in us is using this knowledge and what for? Are we training people with characters that make it possible to make good use of that knowledge?

What drives us is a feeling of solidarity? Are we seeking to create a culture of peace and love, of selfless prosperity? Is the goal to find happiness that doesn't depend on anything out there?

No. We know that not yet. With a few exceptions. And why? Because this knowledge that is the science of self-realization (or spiritual intelligence) that shows that happiness is within and how to access it, is still for very few.

We are making moves to gain scale. For example: in Brazil, we had a tremendous advance when we managed to place the development of social-emotional skills in the new common National Educational Base. The need to develop self-knowledge is already at the base.

I consider it a gigantic advance. It was hard work to achieve that. We’ve paved the way, but until  becomes a practical reality, and if it will become a reality, it depends on us. I would say that it depends more objectively on professionals from the educational field. It’s you, educators, who will carry out the task of putting this law into practice or not.

I placed a doubt by saying “if it will become a reality”, because I know that the fear of this transformation is very big. As toxic and destructive the actual belief system may be, it gives us a sense of security. The break with a system to which we got used leaves us very vulnerable.

Change is not easy. Especially structural changes. Take the example of an adult who becomes aware of conditioning, a bad habit, an addiction ... don't you need a tremendous job to decondition yourself? And why is it so difficult to change an adult mind? Why is it so difficult to teach an adult mind not to be afraid of life and not to suffer from anxiety? To relate constructively? Because it was programmed in childhood. After the program has been installed ... reprogramming takes a lot of work.

So, it’s clear that education for our children and young people is one more opportunity that we have to avoid this wear that we adults are having today to decondition our minds.

So I see that education based on spiritual values is an opportunity to discontinue the procreation of misery. And misery in every way. But this education needs to understand that freedom is the maximum value and that the child already arrives with a wisdom that needs to be respected and accepted. Children are born loving, trusting and with a clear vision of what they came to do in the world. But how can we, adults with a conditioned mind, manage to respect and create the space for them to reveal their vision, their wisdom, their love and their trust so that all of these could then provoke a different future?

This is our challenge as parents, educators, as co-creators of a new reality. This is a topic that we should all focus on very carefully, because we are talking about the future of humanity. If before we killed ourselves with swords and after with firearms, now besides firearms, we kill ourselves even more with all this technology in the hands of people without spiritual conscience.

Remember: if you want to have a different result, you have to change your pattern. Because if the pattern is maintained, we will continue to destroy ourselves.

For that, we need the courage to innovate. As I said, we are in the midst of a revolution of consciousness. And I think that the main aspect of this revolution is the courage to become spiritual in a secular way. Spirituality is secular. These days I heard from a friend: psychology does not reach the spiritual. And the spiritual usually sticks in religion.

Psychology has its limits and works in the personal sphere; each has its own ... because each has its own personality, history and way of dealing with its biography ... religion each has its own ... but spirituality is universal. It’s the same for everyone. Love is one. Peace is one. Having the same values is what makes it possible to create unity and respect.

And our challenge today is to open this path and build it.

And it all starts with self-knowledge.

We know that self-knowledge enables, among other things, freedom, self-confidence and puts us on the path of ascension in every way. And that it starts with self-observation, with the ability to observe ourselves.

So how is self-observation not part of the curriculum? How is meditation not on the curriculum? Likewise, we need to include conflict mediation, emotion management, mastery of the mind in the curriculum ... and consequently: democratic values, human rights, an understanding of what the environment actually represents for our lives ...  and art, which is the element that connects all this knowledge. This is all part of spiritual awareness.

So, in order to prepare children and even adults for the future after covid-19, I feel that in the first place we need to create spaces for them to be themselves.

So that they can express feelings and so that we can help them to elaborate these contents. In this, psychology and philosophy can help. We need to welcome these children and young people, as many are still not even understanding what is going on. And the escape from this war scenario in which we are living is the internet, which in turn is a minefield.

But I understand that we can only give what we have. How are we going to welcome if we ourselves are broken inside?

Therefore, I think that the first step towards the implementation of this fundamental project to spiritualize our education is to create a space for us, educators, to take care of ourselves. We need to strengthen educators. To adequately prepare and train them for this new evolutionary cycle of humanity.

I propose that we create spaces to dialogue and promote ideas, such as greenhouses for projects of this nature.  This is what we need. A space for us to reflect together openly, having the courage to put everything on the table and especially having the humility to recognize that we don't have all the answers, that we don't know how to do it, and together little by little we start learning how to create this world that we want to live.

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LA EDUCACIÓN POST-PANDEMIA.

La importancia de la espiritualidad en las escuelas post covid-19

En primer lugar quiero decir que veo a esta pandemia de Covid-19 como el inicio da una revolución de consciencia. Y que estamos delante de una oportunidad muy rara, tal vez hasta única, de hacer las cosas diferente; de elegir nuevos rumbos en cuanto sociedad humana. Pero para saber qué paso dar y en qué dirección, necesitamos de mucha sinceridad con nosotros mismos al responder a la pregunta: ¿Estoy feliz? ¿Es este el mundo que en que quiero vivir? ¿Es este el mundo que quiero para mis hijos?

Esta pandemia nos ha mostrado mucho sobre nosotros mismos. Nos ha posibilitado medir nuestros potenciales, pero principalmente nuestras limitaciones en diferentes áreas de la vida. Y considero que el área más deficiente es la espiritual.

Podría decir inclusive que la crisis global que vivimos manifestada en la política, en la economía, en la ética… es esencialmente una crisis espiritual. En el epicentro de la crisis está la inconsciencia al respecto de nuestra verdadera identidad. ¿Quién soy? ¿Qué estoy haciendo aquí en este mundo?  ¿Para qué me levanto por la mañana? ¿Cuál es el sentido de la vida?

Aunque no nos hagamos esas preguntas objetivamente, esta crisis espiritual se evidencia en nuestra falta de habilidad para lidiar con nuestros miedos, con nuestras frustraciones, con nuestras pérdidas, nuestras diferencias, nuestros enojos, nuestras dificultades delante de la impermanencia de las cosas.

El miedo a la muerte, a la escasez, la crueldad que ha emergido tan intensamente, especialmente en el trato con quien piensa diferente.

En mi visión, la espiritualidad es la base de la democracia y de los derechos humanos que son los pilares que pueden asegurar nuestra evolución como especie.

Entonces, ¿cuál es la importancia de la espiritualidad en las escuelas, especialmente post- covid-19? Yo diría que se trata de una importancia vital. Esa importancia viene siendo señalada hace ya bastante tiempo.

Como dijo el pensador André Malraux, aún en 1955: “El siglo XXI será espiritual o no será”. Yo concuerdo plenamente con esa visión.

Si no trabajamos firmemente con el propósito de desarrollar nuestra inteligencia espiritual, primero con nuestros educadores y luego con nuestros niños y jóvenes, sinceramente no veo horizontes para nuestra sociedad.

Cuando hablamos de espiritualidad estamos hablando de consciencia, que nos lleva a cuestionar nuestra identidad y dónde, de hecho, está la felicidad. ¿Qué nos mueve?.

Entonces la segunda pregunta que hago es: ¿estamos preparados para enseñar a un niño a ser feliz? ¿Estamos preparados para crear un futuro próspero, armónico y bendecido? Si no tenemos eso hoy, ¿cómo es que lo tendremos mañana? ¿Cómo vamos a compartir aquello que no tenemos? Esas son cuestiones complejas.

Lo que veo que tenemos hoy es un conocimiento secular basado en un sistema de creencias y obviamente en evidencias científicas, pero que tienen como base la creencia principal de que la felicidad está fuera de nosotros y que puede ser comprada. Vea la seriedad de esto. Entonces el conocimiento termina siendo para especializar la mente humana para que tenga la capacidad de comprar la felicidad de diferentes maneras. Sea creando riquezas para comprar con dinero la felicidad, sea para ejercer dominio sobre el otro, pues tenemos una otra creencia que si subyugamos al otro, de que se somos superiores, vamos a recibir lo que necesitamos.

Entonces vivimos un error y nuestro sistema actual de enseñanza se basa en ese error. Así, el primer insight es que se hace necesario una discontinuidad del modelo actual, una verdadera ruptura en relación al denominador común que motiva el aprender y enseñar.

Si queremos un futuro diferente, tenemos que provocar una discontinuidad porque el hoy es el resultado del ayer.

De la forma que hemos hecho, ¿qué conquistamos? Vamos a hacer un análisis objetivo, racional y sincero: conquistamos muchas cosas, especialmente el dominio de la materia. Dominamos el átomo en algún grado. Tenemos sondas espaciales explorando las galaxias. Tenemos sondas internas explorando las profundidades de las células. Hemos acompañado una evolución tecnológica sorprendente a lo largo de los últimos años y eso es sólo el comienzo. Leyendo las más recientes publicaciones científicas vemos que hay descubrimientos increíbles llegando para los próximos años, debido especialmente al avance en el área de la informática que nos lleva para la inteligencia artificial y para el dominio de la nanotecnología.‍

Pero la cuestión es: ¿nos conocemos a nosotros mismos?

¿Quién en nosotros está apretando el botoncito que tiene acceso a ese todo ese conocimiento? ¿Quién en nosotros está haciendo uso de este conocimiento y para qué? ¿Estamos formando personas con un carácter que posibilite hacer un buen uso de ese conocimiento?

¿Lo que nos mueve es un sentimiento de solidaridad? ¿Estamos buscando crear una cultura de paz y de amor, de prosperidad altruista? ¿El objetivo es encontrar la felicidad que no depende de nada allí fuera?

No. Sabemos que aún no. Con algunas pocas excepciones. ¿Y por que? Porque ese conocimiento, que es la ciencia de la autorrealización (o inteligencia espiritual), que muestra que la felicidad está dentro y cómo acceder a ella, aún es para muy pocos.

Estamos haciendo movimientos para ganar escala. Por ejemplo: en Brasil tuvimos un avance tremendo cuando conseguimos colocar en la nueva base nacional común el desarrollo de las habilidades socioemocionales. Ya está en la base la necesidad de desarrollar autoconocimiento.

Considero un avance gigantesco. Fue un trabajo duro para conseguir eso. Abrimos un camino, pero hasta eso transformarse en realidad práctica, y si es que va realmente a transformarse en realidad, depende de nosotros. Yo diría que depende más objetivamente de los profesionales del área de la educación. Son ustedes, educadores, que realizarán la tarea de colocar o no esa ley en práctica.

Yo coloco una duda. Digo: “si es que va a transformarse en realidad”, porque sé que el miedo a esa transformación es muy grande. Por más tóxico y destructivo que el sistema de creencias sea, él nos da una sensación de seguridad. El romper con un sistema al cual nos acostumbramos nos deja muy vulnerables.

Cambiar no es fácil. Especialmente cambios estructurales. Vea el ejemplo de un adulto que toma consciencia de un condicionamiento, de un mal hábito, de un vicio… ¿no necesita un tremendo trabajo para descondicionarse? ¿Y por qué es tan difícil cambiar una mente adulta? ¿Por qué es tan difícil enseñar a una mente adulta a no tener miedo de la vida? ¿A no sufrir ansiedad? ¿A relacionarse de una forma constructiva? Porque fue programada en la infancia. Después de que el programa fue instalado… reprogramar da mucho trabajo.

Entonces, es claro que la educación para nuestros niños y jóvenes es una oportunidad más que tenemos de evitar ese desgaste que, hoy, nosotros adultos estamos teniendo para descondicionar nuestras mentes.

Entonces veo que la educación basada en valores espirituales es una gran oportunidad de descontinuar la procreación de la miseria. Y miseria en todos los sentidos.

Pero esa educación requiere comprender que la libertad es el valor máximo y que el niño ya llega con una sabiduría que necesita ser respetada y acogida. El niño nace amando, confiando y con una clara visión de lo que vino a hacer en el mundo. ¿Pero cómo nosotros, adultos con la mente condicionada, vamos a conseguir respetar y crear el espacio para que ese niño pueda revelar esa visión, esa sabiduría, ese amor, esa confianza que podría entonces provocar un futuro diferente?

Este es nuestro desafío como padres, educadores, como co-creadores de una nueva realidad. Ese es un tema en el cual todos nosotros deberíamos empeñarnos con mucha atención, porque estamos hablando del futuro de la humanidad. Si antes nos matábamos con espadas y después con armas de fuego, ahora además de esas, nos matamos más aún con toda esa tecnología en las manos de personas sin consciencia espiritual.

Recuerda: si quieres tener un resultado diferente, tienes que cambiar tu patrón de comportamiento. Porque si se mantiene el patrón, vamos a continuar destruyéndonos.

Para eso, necesitamos de coraje para innovar. Como dije, estamos en medio de una revolución de la consciencia. Y pienso que el principal aspecto de esta revolución es el coraje de espiritualizarnos de una manera laica. La espiritualidad es laica. Estos días escuché de una amiga: “La psicología no alcanza lo espiritual. Y lo espiritual normalmente se engancha en la religión”.

La psicología tiene sus límites y actúa en la esfera personal; cada uno tiene la suya… porque cada uno tiene su personalidad, historia y su manera de lidiar con su biografía… la religión cada uno tiene la suya… pero la espiritualidad es universal. Es la misma para todos. El amor es uno. La paz es una. Lo que posibilita crear unión y respeto son los mismos valores.

Y nuestro desafío hoy es abrir ese camino y construir eso.

Y todo comienza con autoconocimiento.

Sabemos que el autoconocimiento posibilita, entre otras cosas, libertad, autoconfianza, y nos coloca en el camino de ascensión en todos los sentidos. Y que comienza con la auto-observación. Con la capacidad de auto-observarnos.

Entonces, ¿cómo es que la auto-observación no hace parte del currículum? ¿Cómo la meditación no está en el currículum? De la misma forma, necesitamos incluir en el currículum mediación de conflictos, gerenciamiento de emociones, dominio de la mente… y consecuentemente: valores democráticos, derechos humanos, la comprensión al respecto de lo que de hecho representa el medio ambiente para nuestras vidas… y el arte, que es el elemento que conecta todos esos saberes. Todo eso hace parte de la consciencia espiritual.

Entonces, para preparar a los niños y aún a los adultos para el futuro post covid-19, siento que en primer lugar necesitamos crear espacios para que ellos sean ellos mismos.

Para que puedan expresar sentimientos y para que podamos ayudarlos a elaborar esos contenidos. En eso la psicología y la filosofía pueden ayudar. Necesitamos acoger a esos niños y jóvenes, pues muchos no están aún ni siquiera entendiendo lo que está pasando. Y la fuga de este escenario de guerra en el que estamos viviendo es la internet, que a su vez es un campo minado.

Sin embargo entiendo que sólo podemos dar aquello que tenemos. ¿Cómo vamos a dar acogimiento si nosotros mismos estamos quebrados por dentro?

Por eso, pienso que el primer paso para la implantación de este proyecto fundamental de espiritualizar a nuestra educación es crear un espacio para que podamos cuidar de nosotros mismos, educadores. Necesitamos fortalecer a los educadores. Prepararlos y capacitarlos adecuadamente para ese nuevo ciclo de evolución de la humanidad.

Propongo que creemos espacios para dialogar y fomentar ideas, como incubadoras de proyectos de esta naturaleza. Pues es eso lo que necesitamos. Un espacio para reflexionar juntos abiertamente, teniendo el coraje de colocar todo en la mesa y especialmente teniendo la humildad de reconocer que no tenemos todas las respuestas, que no sabemos cómo hacer, y vamos juntos poco a poco aprendiendo a crear ese mundo que queremos vivir.