Sri Prem Baba: (Toca uma música que fala sobre a conexão de amor com o mestre) É isso. Vamos alimentando a chama dessa conexão.

Vamos concentrar a atenção por um instante. Feche os olhos, alinhe o seu corpo, respire suave e profundamente pelas narinas. Quando sentir, abra os olhos e vamos continuar com os nossos estudos. Compreendendo melhor aquilo que estamos fazendo aqui e um aqui bem particular, aqui nesse lugar, nesse ashram, dentro desse salão. A transmissão que ocorre aqui é um fenômeno que está além da mente. O discurso é apenas uma pequena parte, especialmente para aqueles que ainda não estão compreendendo o silêncio. As palavras são parte desse jogo divino. Aquilo que precisa ser transmitido, é transmitido através e entre as palavras e você recebe à medida em que você se acalma e silencia em algum grau. Assim, estabelecemos uma conexão e aí vamos além da teoria.

O trabalho que eu proponho é prático. Se você pode estabelecer a conexão em algum grau; se você pode conectar o seu coração com o meu coração em algum grau, o trabalho acontece. E as palavras podem ajudar ou não, às vezes podem até atrapalhar. Mas, conforme você vai fortalecendo a conexão, você compreende as palavras e elas deixam de te atrapalhar e se transformam em bênçãos, porque são palavras que vêm carregadas de compaixão, de sabedoria e que tem o objetivo de abrir os canais da compreensão. Mas, enquanto esses canais não estão completamente abertos, é possível que você experimente clareza e confusão, expansão e contração, sobe e desce; até que os canais da compreensão se abram e você possa desenvolver um núcleo de observação firme e estável que permita que você testemunhe as oscilações sem se identificar com elas; porque é natural desse plano, as oscilações.

Assim como a natureza às vezes acorda cheia de luz e de calor, e às vezes acorda com nuvens escuras, com chuva, com vento, com frio. Isso é um reflexo daquilo que acontece dentro de nós. A mente sempre oscila porque está sobre a regência da dualidade. Quando for possível observar essa impermanente dualidade sem se identificar, você terá encontrado a saída do labirinto. Aí poderá experienciar a permanência; poderá tocar aquilo em você que não se divide. Isso em você que não se divide não é o seu corpo, sua personalidade. A sua personalidade pertence ao tempo, você acredita ser um homem, uma mulher, um filho, mãe, pai, irmão e todas essas personagens estão sobre a regência do tempo psicológico, estão sobre a regência da dualidade e dessa oscilação.

Então parece que o desafio é você encontrar isso dentro de você que não se divide e usar a sua personalidade para jogar o jogo que lhe foi conferido. Aos poucos vamos conquistando esse estado de libertação; libertação da identificação com a sua história. Quando falamos que a autorrealização é a libertação do cativeiro da matéria, essa é outra maneira de dizer que a autorrealização é a libertação da identificação com a sua história, com a qual você encontra-se encantado.

Quem é você? Claro que você imediatamente responde a partir dessa identificação, porque você acredita ser uma personagem dessa história. E uma personagem que, inclusive, se transforma em algumas situações da vida. Em algumas áreas da vida você é o herói, em outras o vilão, em outras a vítima e essa identificação é que faz você refém do sofrimento. Estamos aqui trabalhando para acordar desse sonho que, muitas vezes, é um pesadelo. Estamos aqui para despertar desse encantamento; encantamento com a sua história. Liberdade implica em você visitar o seu passado e até contar história da sua personalidade, mas sem se perder. Mas até que tenhamos as rédeas da mente em nossas mãos, passamos por altos e baixos. E aí surgem questões como esta:

Pergunta: Mestre, por favor, fale um pouco sobre a sensação de estar regredindo no processo de evolução espiritual? Meu despertar começou dois anos atrás e hoje me sinto muito perdida. Observação: essa última semana tem sido um tapa na cara todos os dias. Obrigada por isso.

Sri Prem Baba: Se você já está podendo agradecer por esses tapas na cara, você não está tão regredido assim; se está podendo agradecer pelo choque de realidade, você não está tão perdido assim. Mesmo que o processo tenha seus altos e baixos, é importante compreender que uma medida de sucesso nesse caminho é quando você está consciente das suas imperfeições, por mais desagradável que isso seja.

Num primeiro momento, essa tomada de consciência de que você está se colocando num lugar ruim pode ser bastante desagradável e ao mesmo tempo é uma passagem fundamental, uma mudança de paradigma, você está acordando a autorresponsabilidade. E quando você consegue perceber que é você que está dizendo não, você pode dizer sim. Se você consegue se libertar de todas as fantasias, de todas as crenças que dizem que você é impotente para mudar a sua realidade, você começa já a poder mudar a sua realidade, embora esse primeiro momento às vezes seja mesmo muito desafiador, porque você pode sair de um estado de amortecimento e de ignorância a respeito desse poder que é a autorresponsabilidade e começa a ver que é você mesmo que está se colocando em um lugar ruim. Aí você começa a se achar a pior das criaturas que até então estava mais fácil, afinal de contas você era uma vítima. A negatividade te pegava geralmente por culpa de alguém e agora você está tendo que perceber que é você quem está provocando isso.

É possível que você saia de um estado de ignorância a respeito da autorresponsabilidade e chegue num estado onde você se sente um monstro, porque você se vê produzindo situações negativas, você se vê machucando outras pessoas, machucando a si mesmo, mas sem conseguir mudar. Aí você começa a sentir vergonha de si mesmo e muita culpa. Isso te dá uma sensação de estar andando para trás. Você passa a acreditar que estava melhor quando estava no estado de amortecimento. “Eu era mais feliz na ignorância, o que eu fui inventar com essa história de me autoconhecer? Estava tudo mais tranquilo na minha vida”. Ou seja, você estava cego e você não enxergava a perturbação; estava amortecido e não sentia a perturbação. Agora você começou a enxergar e começou a sentir. “E agora? Parece que eu regredi.”

Não é verdade, você não está regredindo, você está crescendo e a comprovação de que você está crescendo é o fato você estar começando a enxergar coisas que antes você não enxergava e você não sentia. Mas o que é importante é compreender que isso que você está enxergando é somente um pequeno aspecto da sua realidade. Você está apenas tomando consciência dos seus mecanismos de defesa; não é a sua última realidade, é só uma parte da casca. Você está tomando conta do veneno que te habita e que você usa quando se sente ameaçado.

Se você está manifestando aquilo que entendemos como maldade ou destrutividade é porque você está sob ameaça; é porque você está em contato com um núcleo de dor que você não está sabendo como lidar com ele. Isso não é a sua última realidade. O eu inferior ainda não é você. É mais você que a máscara, mas ainda não é a sua última realidade. Enquanto você não toca essa última realidade, você experimenta essas oscilações e mesmo quando você toca a sua última realidade, mas não pode ainda sustentar essa presença, você também experimenta oscilações.

Na minha experiência, por exemplo, quando eu comecei a ter momentos de samadhi, ou seja, momentos de presença, de silêncio interior, de abertura do coração e voltava para o vale de lágrimas e ranger de dentes, era desesperador. “Como é que estou aqui de novo? Como é que eu não consigo ficar no céu? Qual o caminho para eu definitivamente conseguir somente uma passagem de ida, sem volta?”

É natural que você experimente essas oscilações e para isso é que eu transmito esses discursos. Porque eu entendo que o conhecimento é muito importante porque te ajuda a minimizar o sofrimento do caminho. Por exemplo, você diz assim:

Pergunta: Amado Baba. Ontem você disse sobre a importância do eu observador e da ciência de nossas sombras. Como manter a leveza e a alegria se a todo momento eu identifico o quanto sou invejosa, medrosa, com dificuldade de ver meu valor, desamor, rejeição, etc.

Sri Prem Baba: Ou seja, é a família mostro. Mas essa família ainda não é a sua família real. É uma família adquirida para te proteger.

Mamãe vosso brilho é tão lindo

A sombra é apenas um véu

Vossa face iluminada

Mamãe da Terra, mamãe do Céu.

A mãe é a Terra em si mesmo, é a natureza em si mesmo; é o sagrado e eterno feminino que está fora e que está dentro, a shakti universal. A sombra é só um véu; só uns efeitos especiais, mas que você precisa aprender a lidar com eles. Você só aprende a lidar com eles quando está consciente deles. Quando você está consciente deles, aos poucos, você vai aprender a respeito do poder da escolha.

Até um determinado estágio da evolução da consciência, parece não fazer muito sentido essa questão da escolha; afinal de contas você não pode escolher nada, porque é conduzida pelos impulsos inconscientes. Parece ser falso que você tem poder de escolha. Parece ser mentira que você pode escolher não sentir ciúmes, que você pode escolher não sentir inveja ou se sentir inferior e assim por diante. Afinal de contas você não se domina, é tomado por esses impulsos.

Durante um tempo, você é mesmo uma vítima desses impulsos. Nessa fase de profunda identificação com a sua personalidade, com a sua história e, portanto, com seus mecanismos de defesa, você é uma vítima. É por isso que eu digo que a vítima está dos dois lados da arma. Aquele que machuca e o que é machucado são vítimas da ignorância. Mas quando a consciência começa a se expandir e começa a perceber como o seu ego funciona; começa a compreender a mecânica do ego e da mente; começa a acordar desse pesadelo onde você é uma vítima desses impulsos negativos, aí começa a perceber que você não é esse impulso negativo; começa a poder identificar que tem alguém em você que, por alguma razão, escolhe usar um mecanismo x ou y de defesa, mesmo que essa escolha tenha sido condicionada. Existe um padrão condicionado que te faz usar tais mecanismos de defesa, mas à medida em que você vai se aprofundando nesse entendimento, você começa a perceber que existe sim o poder da escolha, porque eu já vi isso em mim e em algumas outras pessoas. E aí recebo aqui mais uma comprovação:

Pergunta: Guruji, eu só não sou livre porque eu não quero. Gargalhadas eternas. Que presente! Que presente Guruji, que misericórdia. Tash mayshri Guruve namaha.

Sri Prem Baba: Tem alguém aqui saindo do cativeiro, tem alguém aqui se libertando do cativeiro; tem alguém aqui acordando. É isso.

Talvez nesse estado do adormecimento você possa pensar que isso é uma loucura. “Como assim, eu não sou livre porque eu não quero? Que maluco, como assim? Quer dizer que eu me sinto aprisionado porque eu quero? Que eu estou sofrendo porque eu quero? Será que eu estou nesta situação difícil, nesta guerra porque eu quero?”

É porque você quer. Você pode não estar conseguindo ver ainda. E saber disso que eu estou falando pode te angustiar ainda mais.

Sinto muito. Sinto muito mesmo, de verdade. Por isso estou dizendo que às vezes as palavras ajudam, mas às vezes não ajudam tanto.

Eu considero que essa seja uma angústia bendita; uma bendita crise, porque você está atravessando o túnel; a lagarta está querendo se transformar em borboleta. Nesse momento é importante saber que você não sai do casulo porque você não quer; porque talvez você já esteja pronto para sair. Mas a gente se acostuma com tudo nesse mundo, inclusive com aquilo que é ruim, porque você conhece. Pode ser uma escuridão, mas é a sua escuridão. Você diz assim:

Pergunta: Amado Baba. A última semana chegou e o momento de ir embora está cada dia mais próximo. Só de pensar em voltar para a matrix, bate aquele frio na barriga, aquele desespero. Para ajudar, seria possível você passar um sadhana para as pessoas que assim como eu, ainda não foram iniciadas, mas querem continuar no caminho?

Sri Prem Baba: Essa questão traz vários insights. Só quero trazer alguns mais óbvios. Procure não se preocupar com o futuro. Essa preocupação com o futuro é que abre as portas para o sofrimento. Mantenha-se no momento presente. Se você pode se manter no momento presente, nenhum sofrimento te pega. Nenhum. Mas para ajudar a manter a conexão comigo, conforme você está pedindo, eu sugiro que você possa namorar o mantra Gayatri. Se você não conhece o Gayatri mantra, procure descobri-lo. É fácil, vai ali na internet, no Google e vai encontrar várias versões do Gayatri mantra. E permita-se ouvir esse mantra e se puder ouça todo o dia um pouquinho. Isso já é o suficiente. Se você quiser um pouco mais, você pode levar uma gravação do kirtan, do Arati e você pode fazer o Arati na sua casa. Só ouvindo. Ouça o kirtan. Ou ainda, silenciar por alguns minutos de manhã e à noite. Cultive o silêncio o tempo que lhe for possível. E nesse momento de cultivo do silêncio lembre-se de mim. Ao iniciar a prática, lembre-se de mim. Isso é o suficiente. Experimente.

Ótimo. Estamos indo muito bem.

(os músicos cantam o Gayatri Mantra) Esse é o Gayatri mantra. Eu escolho a tradução feita pelo meu mestre:

Que em todos os três mundos, terrestre astral e celestial, que possamos meditar sob o esplendor daquele sol que nos ilumina. Que toda a luz dourada acalente o nosso entendimento e nos guie para a morada sagrada.”

Para completar minha transmissão de hoje, em que, no discurso, eu falei a respeito do poder da escolha; quero acrescentar que eu sei que existem núcleos de sofrimento que estão atrelados a uma desordem física e que, nesse caso, a consciência às vezes não é suficiente para promover a cura. Como disse uma das médicas que me auxilia, a cura pode ser sobrenatural, natural ou através de medicamentos, mas em qualquer uma das três condições, a cura é dada pela Graça divina, inclusive quando se utilizam medicamentos, porque a ciência bem aplicada também é uma manifestação divina.

Abençoado seja cada um de vocês. Que o amor e a sabedoria iluminem os passos da sua jornada. Até um próximo encontro.

NAMASTE

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