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Sri Prem Baba: Considero uma grande vitória do amor que tenhamos um dia dedicado ao yoga, no mundo. Essa vitória se deu através do governo da Índia. Yoga é um tesouro ancestral. É um sistema e um instrumento do caminho da iluminação. Não é uma religião, mas a ciência da liberação. Existem diferentes métodos, que foram codificados por grandes sábios; mas todos eles visando o mesmo objetivo – promover experiência da unidade. Nesse sentido, yoga é sinônimo de religião, mas não a religião horizontal que é a mais conhecida, e sim a religião vertical, que é também um sistema que realiza o significado da palavra. Religião vem do latim, religare, que é a religação da alma individual com o absoluto. Yoga é um sistema científico que foi testado, validado, que promove a religação da alma individual com o absoluto.

Independentemente dos diferentes tipos e sistemas de yoga que existem, eu considero que exista um denominador comum, que está na base. Esse denominador comum nem sempre é colocado de forma apropriada, que é o ahimsa – a não-violência. Nós temos falado bastante sobre não-violência, mas temos também visto como é difícil praticar não-violência.

Nesse dia dedicado ao yoga, meu sentimento é de poder soprar um vento apaziguador, que traga tranquilidade e que apazigue a violência interna; especialmente a violência que você comete contra si mesmo e que, inevitavelmente, acaba refletindo na sua relação com as pessoas ao seu redor. Essa violência contra si mesmo, que é outra maneira de compreender o auto-ódio ou autopunição, manifesta-se de diferentes maneiras. Considero que uma delas, que é muito presente na vida de praticamente toda entidade humana em evolução neste planeta, é uma auto-exigência, que é um tipo de perfeccionismo que carrega uma característica muito especifica que é você ficar se criticando; você ficar o tempo todo tentando encontrar algo errado em si mesmo.

Você pede que eu fale um pouco sobre auto-exigência. É muito importante você identificar quem em você é tão duro, tão rígido e que não admite falhas ou erros; que exige de você uma perfeição que você não tem para dar. Isso nasce de uma instância da personalidade que tenho chamado de “eu idealizado”. É quando, em algum momento na sua vida você acaba entendendo que se você for de determinada maneira, você terá suas necessidades atendidas. Você será amado, acolhido, sentirá seguro. Mas você não é de fato aquilo que acredita que precisa ser; mas você acredita que precisa ser daquele jeito porque em algum momento isso foi mostrado a você; em algum momento isso foi exigido de você. Esse condicionamento foi instalado. E aí você passa sua vida tentando ser uma coisa que você não é, com medo que se você for você mesmo, não terá suas necessidades atendidas.

Meu convite é para que você possa respirar e possa de verdade relaxar; que você possa tornar-se natural novamente; que possa ser espontâneo novamente; que você não precise se forçar a ser algo que você não é; que você deixe de ser tão duro consigo mesmo, cobrando de si algo que não tem para dar, pelo menos não nesse momento. E, dependendo do que você está exigindo de si, talvez nunca tenha. Porque, se é uma idealização, não é real. Está exigindo de si algo que você não tem. Percebe como esse eu idealizado pode ser um tirano cruel?

A auto-exigência está intimamente ligada a uma necessidade de agradar. Só que nessa tentativa de agradar, o que ocorre é que você acaba desagradando, e muito. Nessa tentativa de agradar, às vezes você se torna uma pessoa irresistivelmente desagradável, justamente porque você não pode ser você mesmo. Você tenta ser o que não é, se critica quando sente que falhou e aí pode, inclusive, abrir as portas do inferno; porque você se culpa por ter falhado, se pune ainda mais e os desdobramentos podem ser infinitos.

Essa auto-exigência, consequentemente a autocrítica e tudo que se desdobra, é um aspecto do orgulho. Orgulho é uma matriz psicológica que faz com que você sempre se acredite superior ou inferior àquilo que de fato você é. Ou se manifesta através de um complexo de superioridade, ou de um complexo de inferioridade, que são dois extremos da mesma coisa, que é um instrumento de proteção de choques de humilhação.

Um caminho para você superar essa auto-exigência – e, consequentemente, esse perfeccionismo e desse crítico interno – é você mostrar a esse protetor que ele não tem mais função. Mas para ele não ter mais função, você precisa acolher seu choque de humilhação. Precisa conseguir olhar e aceitar. E o caminho para isso é você ir atrás das suas vergonhas. Aquilo em você de que você se envergonha.

A vergonha está a serviço de proteger você dessa dor e humilhação. Todos nós carregamos partes que não pudemos chegar a um acordo. Sentimos vergonha porque não foi possível acolher a dor de ter sido humilhado. O caminho que estou propondo é um caminho de integração; que você possa integrar essas partes que estão relegadas aos porões, partes separadas, suprimidas. Que você possa trazer para a luz e assumir: “isso aqui também sou eu e está tudo certo”.

Mas, dependendo de como foi o choque de humilhação, talvez não seja tão fácil para você acolher. Se a dor foi muito grande e você precisou desenvolver uma grande vergonha para proteger-se, então não será fácil furar esse círculo. Vergonha não é fácil de lidar. É difícil lidar com a vergonha, que é um outro aspecto do orgulho, mais difícil do que os complexos de inferioridade e superioridade, mais difícil que a vaidade, que a soberba, que a arrogância e você vai precisar lidar com essa vergonha. Talvez dialogar com ela, para que ela lhe diga o que ela está protegendo. Essas partes da sua personalidade conhecem bem a sua história. Na verdade, suas vergonhas conhecem bem a respeito dos seus choques de humilhação. E, ao conversar com sua vergonha, ela pode lhe contar essa parte de sua história que precisa ser integrada para que você possa desidentificar-se dessa história. Você não pode desidentificar-se de uma hitória fragmentada. Você não pode desidentificar-se de uma personalidade fragmentada. A personalidade é a personagem dessa história. Para você poder ir além dessa personagem; ir além dessa história, faz-se necessário integrar e juntar essas partes.

Por exemplo, se você tem vergonha de um sentimento de pobreza, de feiura, de inadequação, de uma parte do seu corpo, dos seus familiares, de uma parte de sua própria história é porque tem dor ali, porque de alguma maneira você se sentiu humilhado. E, se sentiu-se humilhado, também se sentiu excluído ou rejeitado. Então, isso precisa ser elaborado e integrado. Isso passa pela aceitação porque, como você pode ir além de algo de que você está fugindo? Como você quer sair de um lugar em que você ainda não chegou? Como você vai entregar um ego que você ainda não tem? Você tem que ter o que entregar.

Quanto mais duro você é consigo mesmo, quanto mais exigente, perfeccionista, maior a dor de humilhação que você tenta esconder. Às vezes você até consegue ver, mas não consegue relaxar e rir disso. Rir de verdade. É preciso ter bom humor para lidar com suas misérias. Quando puder rir de verdade de suas misérias sem que isso seja uma fuga, é sinal de que você está se soltando disso. Às vezes você ri disso, mas é um riso nervoso; na verdade, você está fugindo da coisa. É a vergonha que está rindo. Mas quando você pode realmente aceitar e rir disso, você começa a se descolar dessa falsa identidade, dessa personagem que viveu esses episódios de humilhação e que até então você acreditava ser você; mas que em verdade podemos dizer que é você também. Mas não é o núcleo da sua identidade. Você não é seu veículo. Seu veículo passa por estradas esburacadas. Seu veículo se machuca. E às vezes você tem um veículo machucadinho; um veículo que está arranhado, está com a suspensão quebrada. Fazer o quê?

A única falha dessa analogia é que no mundo material, se seu carro quebra você compra outro. Se você tem dinheiro, você vai e compra outro carro. E com relação ao corpo não é assim que funciona; você tem um contrato com a locadora que você não pode rasgar. Um ou outro acaba rasgando o contrato acreditando que está livre das consequências. Um ou outro acredita que o suicídio resolve. Amarga ilusão. Você tem que dar conta de ficar nesse carro e de poder realmente desidentificar-se dele. Quem é você? Quem habita esse corpo?

Quando você pergunta de verdade: “quem sou eu? Quem habita esse corpo?” Você está começando a prática do yoga; está começando o processo de integração, que, muitas vezes, passa por tudo isso que acabei de descrever. Para auxiliar nesse processo, você pode fazer asanas, que são as posturas psicofísicas; pranayamas, que são exercícios respiratórios para controlar energia vital; pode fazer os kryas, práticas de concentração, meditação, mantra. Estou resgatando aos poucos o yoga antigo; yoga transmitido pelo senhor Shiva. Nesse ciclo do tempo, estamos chamando de Awaken Love Yoga, que é o mesmo que o Yoga antigo, que é o yoga tântrico. Tântrico no sentido da espontaneidade e naturalidade.

Esse é um assunto muito profundo que vou, aos poucos, destrinchar para que você possa compreender. Nesse momento quero falar dessa base do yoga que é a não-violência. Repito que começa com a não-violência em relação a você mesmo. É incrível como usamos pensamentos palavras e ações contra nós mesmos. Isso precisa ser interrompido. Isso é interrompido através da consciência, da forma como acabo de explicar. Sendo assim podemos até concluir que a violência está relacionada a uma não aceitação de uma parte de si mesmo. E a violência, no caso, na forma da auto-exigência, do perfeccionismo, da autocrítica. Isso significa que tem uma parte de você que você não está podendo aceitar, que você tem vergonha porque tem uma dor que você não está podendo aceitar.

Eu te dei um caminho, agora você precisa trilhar esse caminho. Vá atrás dessas partes suas que estão esquecidas, gerando todo esse stress na sua vida.

Sendo assim, a conclusão a que estou chegando aqui é que a brisa apaziguadora é uma brisa de aceitação. Aceitação em relação a si mesmo, dessas partes que ficaram esquecidas. Consequentemente, aceitação também em relação ao que o tempo está trazendo. Porque o tempo está trazendo um grande balanço neste mundo, que às vezes é difícil aceitar. É difícil aceitar que o avião passa por turbulência. Quem gosta de turbulência? Eu não gosto. Na turbulência você acha que o avião vai cair e ninguém quer isso para si. Mas temos que ver essas turbulências com os olhos do espírito. Temos que ver esses balanços do tempo com os olhos do espírito. Ficar firme na devoção, na fé, na sua prática. E aceitando que às vezes venta forte e balança você. Assim é. Se você se opõe ao vento, fica bem difícil. Se você dança com ele, fica bem mais fácil. É isso o que chamo de aceitação, a brisa suave que tranquiliza seu coração.

Hoje também se inicia o inverno aqui no hemisfério Sul. No Norte, é o começo do verão. Mudança da estação. Aqui, é nessa fase do ano que as coisas se aprofundam. É onde entramos no núcleo do que eu chamo festival de Wesak, que começa na lua cheia de Buda e vai até o final de setembro. Ainda mais nesse ano de Saturno. Meu conselho é: não tome decisões precipitadas. Na medida do possível, se acalme. Até que você tenha bastante clareza das coisas e possa tomar decisões a partir da calma e da tranquilidade. Não tome decisões com base em emoções, porque esse é um ciclo onde as emoções borbulham muito. Um tempo muito bom para aquietar-se, ouvir boas músicas, usar bastante arte, artes plásticas, mexer com a terra. São instrumentos que te ajudam a acalmar-se.

Que através dessas práticas possamos encontrar harmonia. Que nossa oração surja dessa harmonia.

Abençoado seja cada um de vocês. Que haja calma. Até um próximo encontro.

NAMASTE.

 

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