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Sri Prem Baba: Seguimos cantando os nomes do Senhor, invocando o Ser supremo que nos habita. Até que Ele tome conta de cada molécula do nosso corpo. Antes de seguir estudando um pouco mais o livro da vida, eu lhe convido a se recolher por um instante em silêncio. Relaxe na calma do seu coração, de onde você apenas testemunha tudo que se passa. Quando quiser, lentamente abra os olhos. Temos hoje aqui muitas boas perguntas.

Por exemplo: Como iniciar a busca espiritual em um mundo que te exige tanto do externo? Como fazer a prática diária?

Sri Prem Baba: Uma pergunta aparentemente simples, mas que evoca muitos insights. O primeiro que me vem é a importância de abandonarmos as divisões, especialmente a divisão entre matéria e espirito. Embora a meta do caminho seja a autorrealização do ser – autorrealização significa libertar a alma do cativeiro da matéria – e essa liberação só é possível através do conhecimento do ser – esse conhecimento se dá onde quer que você esteja -. Você não precisa se recolher numa caverna; talvez o que você precise seja reconhecer que você está numa caverna e fazer com que cada conjunto de ações no dia seja sua prática.

Eu considero que tudo se torna mais simples quando você transforma sua vida em serviço; mas existe um detalhe que precisa ser compreendido: o comprometimento com a verdade. Esse comprometimento com a verdade é fundamental. Independentemente de onde você esteja e do que esteja fazendo, é fundamental que queira encontrar a verdade e ser um canal dessa verdade e assim fazer de cada conjunto de ações uma oração. Colocando-se a serviço. Nesse movimento em direção à verdade, às vezes você encontra, às vezes perde, às vezes visualiza um aspecto da verdade, mas não a verdade como um todo. De qualquer forma, o importante é o comprometimento até que não existam mais meias verdades.

Por exemplo: Querido Mestre, colocar para fora o meu maior talento – que é também o que mais preenche meu coração – é o meu maior desafio. Na prática, erro muito e isso me frustra a tal ponto de eu querer deixar tudo e não fazer mais nada. Isso me dói profundamente.

Sri Prem Baba: Nesse movimento em direção à verdade você pode entrar em contato com seu talento, já pode reconhecer que ele preenche seu coração, mas ainda não pode identificar o que te impede de compartilhar esse tesouro com o mundo, porque existe algo que impede. Quando você começa a compartilhar, se frustra, de alguma maneira comete algum equivoco, o que faz com que perca a fé no seu dom e consequentemente perca a fé em si mesmo. Isso acontece porque existe algum bloqueio na expressão do amor. Ainda não está sendo possível transformar sua ação em serviço. Ainda existe um ponto escuro que não foi identificado, um ponto cego que podemos traduzir como egoísmo ou ainda, para ser mais simplista e objetivo, ódio.

Existe uma capa de ódio encobrindo o amor; faz-se necessário uma tapasya maior. Tapasya é uma palavra em sânscrito que diz respeito à austeridade, mas austeridade é outra palavra que não explica completamente o fenômeno. Tapasya é o fenômeno da purificação do coração, do ódio que te impede de amar. Eu considero que uma boa síntese do caminho da autorrealização é justamente poder amar a todos, inclusive aqueles que te ferem e te desprezam.

Eu considero que, na essência, esse é meu sadhanasadhana é a prática espiritual -, independentemente de estar fazendo um mantra, um kriyä ou qualquer outra técnica, meu sadhana é amar a todos, mesmo os que me desprezam. Assim, eu pretendo inspirar-lhe a seguir esse caminho, porque eu realizei que esse amor liberta. É esse amor que te liberta do cativeiro da matéria, liberta sua alma. Porque esse amor é sua essência, é a respiração da vida. E por alguma razão, você não está podendo respirar a vida, não está podendo compartilhar seu tesouro maior.

Esses pontos de ódio se manifestam no sistema de crenças que te limitam. Você acredita que se você se doar, por exemplo, algo ruim acontecerá. E como essa crença está muitas vezes profundamente enraizada no seu subconsciente, você cria essa realidade e alimenta a crença de que não pode se doar. Custa um grande sofrimento amar. Essa é a conclusão que eu chego: custa um grande sofrimento amar; amar a Deus, que habita cada ser.

Você pergunta assim: Por que temos tanto medo de amar? Essa entrega de sentimentos é tão abalada pelos bloqueios desse mundo? Na maior parte do tempo consigo sentir e fluir, mas sempre algo me puxa e me coloca numa posição em que sinto inferioridade ou boba por acreditar no amor, principalmente no meu círculo familiar, no qual sou a única a acreditar plenamente que só o amor salva.

Sri Prem Baba: Talvez você não acredite plenamente que só o amor salva, ou estudando melhor as palavras que está usando, talvez você esteja acreditando plenamente, mas ainda não está sentindo de verdade que só o amor salva. Porque quando você realmente realiza isso e esse amor flui, você não espera nada em troca. Quando esse amor puder fluir você compreenderá que cada um tem seu tempo. Esse amor sempre vem junto com sabedoria, com a sagrada compreensão. E essa compreensão nos permite ver que tudo tem seu tempo. Assim como o ser humano evolui – nasce um bebezinho que se torna uma criança, um adolescente, um adulto, envelhece e assim por diante -, o mesmo se da em relação à consciência; é um chakra depois do outro. É possível que você esteja no chakra cardíaco, amando, confiando na vida, e é possível que esteja numa família que está no primeiro e segundo chakras, tentando sobreviver, decifrar como ter prazer na vida.

Você tem de aprender a aceitar que flores diferentes podem viver juntas. Às vezes é mais difícil, claro. Especialmente quando você está em ambientes muito diferentes da sua vibração. Por exemplo, sua consciência se expande por conta do seu trabalho interno e você sobe um degrau, mas está trabalhando numa empresa em que a maioria está num outro chakra; mais do que as pessoas, o sistema, que está estruturado com base num chakra inferior. Imagine que nesse aspecto você tenha atingido a consciência de um quinto chakra e compreende a importância da cooperação, união, trabalhar junto, sem hierarquia, mas está trabalhando num lugar conduzido por um sistema que está no terceiro chakra – onde é necessária a hierarquia, a imposição -. Aí, precisa sair desse lugar porque você pode estar submetido a um stress que pode te machucar. Mesmo esse movimento de se afastar é feito com sabedoria, com tranquilidade, porque você reconhece que dentro desse processo de desenvolvimento da consciência, a pessoa às vezes está precisando cristalizar alguns aspectos do ego e não tem o menor sentido você confrontar aquilo.

Quando você acorda, percebe que é estúpido enfrentar aquilo. É estúpido entrar em conflito com alguém que está num nível de consciência diferente do seu. Quando você está em fase de despertamento, começando a acordar, mas não totalmente acordada, o que pode te ajudar é justamente evitar esses conflitos, confrontos, porque eles sempre nascem de uma necessidade de provar para o outro que você está certo, que viu a verdade. E o outro tem de ver junto com você.

No mais profundo, você sente medo de ficar sozinho. Você quer que as pessoas que ama vivam junto cosigo, mas, meu amado, essa portinha do Céu é estreita. Só passa você. Nem um eu psicológico vem junto, quanto mais o outro. O que é possível fazer é ficar na porta esperando as pessoas chegarem. Isso é possível. Esse é o trabalho dos Bodhisattvas; eles ficam na porta esperando os outros chegarem. Mas a porta é estreita, só passa você. Não faz sentido querer arrastar o outro cosigo. Esteja atento a isso, essa necessidade de querer provar seu ponto de vista; não deixa de ser uma vontade de converter o outro para sua religião, a religião que você criou. Olha como é sutil. Compreenda o que estou dizendo: de repente você tem um vislumbre da verdade e, aí, já quer convencer o outro dessa verdade que acessou. Não dá porque tudo tem seu tempo.

A aceitação é um fruto da compreensão; a compreensão de que você não pode forçar a maturidade. E se você está querendo forçar o outro à maturidade significa que não está tão maduro quanto acredita que esteja. Você está enganado a respeito do amor que acredita estar sentindo, porque você não respeita o tempo do outro.

Como disse no início, você precisa respeitar inclusive que o outro pode te odiar. Não estou dizendo que chegará a isso num estalar de dedos; isso é minha prática espiritual, estou desenvolvendo e te ajudando a desenvolver. Mas se você tem clareza de que é seu trabalho inteiro, você vai, pouco a pouco, desenvolvendo-o.

Amar alguém que pensa como você é fácil. Amar alguém que te ama e é carinhoso com você é muito fácil, gente! Isso nem exige trabalho algum. O trabalho está em você amar aquele que não concorda contigo. Como tenho dito, amar a pessoa por quem você está apaixonado e que está apaixonada por você, é muito fácil. O desafio é amar a ex-mulher, ex-marido, ex-namorada, ex-amante; esse é o verdadeiro poder. Permita-se apenas imaginar, vamos fazer uma sessãozinha de ficção científica: imagine você amando inclusive aquele que quer te matar. Isso é problema dele, não é meu. Percebe como isso te liberta?

Mas se o outro está contra você, pensa diferente, você se incomoda e acha que tem algo errado cosigo, começa a se criticar; aí, existe um problema sério. Você começa realmente a acreditar ser uma pessoa errada e, aí, ‘adios’.

Mas se reconhece que o outro está naquele momento precisando te acusar e você permanece no seu centro, aquilo passa. Permaneça aberto o suficiente, caso o outro esteja falando a verdade sobre você, porque ele pode estar falando de uma forma torta, a verdade – contando um erro seu, um defeito, só que tomado de raiva -; o nome disso é humildade, é se sentir igual.

Eu sinto que assim vamos purificando o ódio do coração e nos harmonizando com a vida. Pode ser muito simples! Você pode focar apenas em amar; e se você não puder amar, entre em contato com o que está te impedindo. Esta é realmente a essência do caminho.

Você diz: Diga algo sobre São João.

Sri Prem Baba: Na minha visão, falar sobre São João é falar sobre o guru; ao tentar falar sobre o guru, as palavras desaparecem. Talvez eu possa dizer que São João foi o guru de Jesus, na minha visão. Guru é um poder que tira a alma da escuridão e a coloca na luz. Pra mim, que também sigo a trilha de Jesus, dia de São João é um dia de Vyasa Puja, é um Guru Purnima, dia que se homenageia o Guru.

Seguir a trilha de Jesus significa perdoar a ignorância, tornar-se o perdão. É assim que eu vejo. São João deu isso a Jesus.

Abençoado seja cada um de vocês, que o amor e a sabedoria iluminem o seu caminhar. Até um próximo encontro.

NAMASTE

 

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