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Sri Prem Baba: Vamos silenciar por um instante. Inspire e expire suave e profundamente pelas narinas e a cada respiração permita se esvaziar de toda a expectativa, de todo o desejo, de toda a preocupação e relaxe no momento presente de onde você apenas testemunha o fluxo da impermanência. A presença evoca a calma e o silêncio. Mantendo a calma, o silêncio – ou seja, a presença -, quando quiser abra os olhos para que possamos dar continuidade aos nossos estudos.

Você me pergunta: Amado Guruji, porque às vezes o dia amanhece tão barulhento e outros dias tão silenciosos?

Sri Prem Baba: Eu não sei. Há muito tempo que eu desisti de entender. O que eu sei é que até um determinado estágio no universo existem duas correntes de forças atuando concomitantemente. Claro que se eu quiser tentar entender, é possível que eu encontre algumas respostas. Existem muitas teorias, mas a partir de um determinado momento na jornada eu concluí que seria um desperdício do tempo eu tentar entender. Então passei a aceitar que às vezes as nuvens são escuras e às vezes são claras; às vezes o dia amanhece nublado, chovendo e às vezes amanhece ensolarado. Assim é! Compreendo que isso é uma oportunidade para desenvolvermos equanimidade mental. Eu tenho dito que quando você puder não se identificar com aquilo que é impermanente, você terá encontrado a saída do labirinto da mente. Se você puder somente testemunhar o fluxo das nuvens sem se opor, sem criticar e sem tentar entender, você terá encontrado a saída.

E estando nesse lugar onde testemunha passivamente o trânsito da impermanência, é possível que você tenha acesso a algumas compreensões. Inclusive, se fizer parte de seu propósito ter que entender a mecânica da dualidade, isso se apresentará para você. Se fizer parte do jogo da sua alma ter que entender porque em algum momento definiu-se que um metro é uma medida que contém cem centímetros… Eu falo porque eu passei por isso. Eu queria entender por que em algum momento alguém decidiu que um metro tem esse tamanho. Eu queria saber para entender. E aí estava lá a definição, segundo o Instituto de Pesquisa Científica de Medidas da França, que um metro é igual a uma medida de um milhão quatrocentos e setenta e três mil, seiscentos e setenta e três vírgula setenta e três comprimentos de onda no vácuo, da radiação laranja avermelhada do isótopo de criptônio trinta e sei – a definição científica de metro, uma radiação que foi medida no vácuo -. Eu guardei isso na cabeça. Nunca esqueci! Olha só que coisas ficam na cabeça da gente! Ocupei os bancos da minha memoria com essas informações. Engraçado; lembrei agora. Eu era criança quando aprendi isso. Fazia parte do meu propósito entender isso, pois, naquele momento, meu propósito era conhecer Deus através da matemática. Depois o propósito foi se transformando; era apenas uma camada do meu propósito. Até que eu pude chegar ao núcleo. Meu propósito não era entender Deus; era experienciar Deus.

Essa brincadeira é para entender que tem momentos que talvez seja importante você entender a mecânica da dualidade; o que acontece com a entidade humana para que ela se divida, já que ela é uma coisa só; o que acontece que ela acaba se dividindo em muitas partes. Para facilitar a didática falamos de duas partes. De vida e morte; bem e mal; luz e escuridão; sim e não. O que acontece é que em dado momento nasce uma força oposta e as duas atuam simultaneamente no mesmo indivíduo. Tivemos a chance de estudar isso muitas vezes aqui nesse salão e vimos também que o externo é um reflexo do interno. Portanto, até um determinado estágio essa dualidade vai se apresentar como uma oportunidade para você encontrar a unidade dentro dessa multiplicidade, porque o protagonista desse plano é você. É o ser que se expressa através desse corpo; é o ser que se desenvolve através desse corpo; é a consciência que se expande através desse corpo. E essa expansão possibilita que você tenha discernimento

Pergunta: Você pede que eu comente sobre discernimento espiritual?

Sri Prem Baba: Eu não sei se existe um discernimento que não seja espiritual. Todo o discernimento é espiritual. Discernimento é o resultado da consciência que possibilita que você vá além de todas as distorções da percepção; que te dá lucidez para encarar a realidade. Um dos aspectos da realidade nesse plano da existência é que, até certo ponto, você vai experienciar a dualidade. Até que você – o protagonista – encontre a unidade. E quando você encontra a unidade, a dualidade desaparece. E mesmo que lá fora esteja fazendo sol ou fazendo chuva, isso não te perturba, porque a dualidade não tem mais como interferir na sua percepção. Não tem como te importunar.

Eu tenho trabalhado para que você possa desenvolver essa capacidade de testemunhar o fluxo da dualidade – ou da impermanência – sem se identificar e poder ser o mesmo diante dessas oscilações. A vida nesse plano se manifesta como uma onda, e uma onda tem seu pico e tem seu vale. Às vezes você está no pico, às vezes você está no vale. Quando você está no pico significa que você está se preparando para descer o vale. Quando está no vale significa que está se preparando para subir no pico. Assim é! O prazer é o intervalo entre duas tristezas. O que fazer? Assim como você acorda no pico ou no vale, a natureza acorda no pico ou no vale, porque assim como é fora é dentro.

Uma das linhas do nosso arati, diz: “Prakrti Bhup prarabdha bhup ki”: “Que eu me torne Senhor da prakrti inferior”, que eu me torne Senhor da matéria; que eu deixe de ser influenciado pelas alterações da matéria. Isso significa liberar a alma do cativeiro da matéria e se tornar Senhor da matéria. Isso é possível quando você encontra a unidade dentro da dualidade; isso só é possível quando você deixa de se perturbar com a dualidade que te habita. Aí você deixa de se perturbar com a dualidade que está lá fora. E deixar de se perturbar com a dualidade interior, significa deixar de se perturbar com os pensamentos que te habitam; que são um instrumento do não, da corrente de morte que te habita. A corrente negativa cria a oposição através de pensamentos que se transformam em emoções, em sensações que você se identifica, que você acredita; e isso cria confusão dentro de você. Isso se manifesta nas situações da sua vida. Por exemplo:

Pergunta: Baba, tenho muita dificuldade de amar a minha sogra. Vejo nela os meus defeitos e não consigo aceita-la. Ela grita, ela é católica, ela é controladora e – o pior – ela me ama muito. Por favor, me ajude a aprender a ama-la.

Sri Prem Baba: Enquanto você estiver se incomodando com a religião da sua sogra, com o comportamento dela, você está à mercê do sofrimento. (Toca a música de um celular no salão) E aí você vai ficar ouvindo uma música dessas dentro de você o tempo todo, sem compreender de onde está vindo e sem conseguir desligar o aparelho (risos). Mas aqui eu sinto que você começou a visualizar uma saída. Você consegue já perceber que esses defeitos que você vê nela são seus defeitos, mas não está conseguindo deixar de aceitar o convite da sua corrente de negação para brigar. A corrente de negação cria os pensamentos que fazem você imaginar que a sua sogra é responsável por sua infelicidade. Assim como você às vezes imagina que o dia nublado é responsável por você estar triste, ou que o dia ensolarado é responsável pela sua felicidade. São pensamentos que levam você a olhar para fora e acreditar que a felicidade está lá, e faz você se tornar dependente de uma situação externa para ser feliz. Então, para você ser feliz a sua sogra tem que falar baixo, tem que ser evangélica, ou budista ou ateia; e assim por diante. Para você ser feliz o dia tem que amanhecer iluminado ou de alguma outra maneira.

Certa vez eu li uma história que falava de um Swami que era considerado iluminado – não recordo o nome dele agora -, mas era um mestre para muitos. Tinha muitos seguidores. Usava um doti laranja, que é como alguns seguidores do Sanatana Dharma se vestem. Na história contava que esse considerado santo, quando chegou ao seu vilarejo, ouviu dizer que sua a ex-mulher estava lá. Quando ele soube disso, ficou muito perturbado. Passou um tempo, ele apareceu sem a roupa laranja que usava e os discípulos queriam entender o que tinha acontecido. Então ele falou: “Descobri que eu estava enganado sobre mim, porque se eu fiquei perturbado com a minha ex-mulher, é que eu não estava onde eu acreditava estar”. Achei linda essa história. Um grau de honestidade admirável. Porque ele se viu se perturbando com a impermanência que se manifesta através da ex-mulher, através da sogra ou através da nuvem escura ou da nuvem clara.

Quem em você está se sentindo tão perturbado? Quem em você depende que o outro seja de um jeito ou de outro para você se sentir bem? Identifique esse eu em você. Ao identificar esse eu, você estará ampliando o discernimento. Quem é em você que se sente perturbado? E esse eu é você? É a sua real identidade? Se aprofunde nesse processo de autodescoberta, de auto-investigação. Será que esse que se perturba é o eu real? Ou será uma personagem da história que você criou sobre quem é você? Em síntese eu estou dizendo que a dualidade vai acordar a unidade quando você estiver suficientemente maduro; ela está te ensinando a equanimidade mental. E você inicia esse processo pela auto-observação. Portanto é verdade a afirmação que a dualidade esta desenvolvendo a sua capacidade de se auto-observar. Estou me fazendo compreender? A auto-observação é o início da jornada da autorrealização que te possibilita testemunhar o fluxo da impermanência sem se perder.

Onde você está? Mais uma vez eu lhe convido a fazer essa pergunta para si mesmo: Onde estou? O que estou fazendo? Volte para o momento presente. Perceba que aqui e agora não existe dualidade. Aqui e agora você não é uma nora, não é uma sogra, não é filha, não é mãe, não é pai, nem irmão, nem homem, nem mulher. Aqui e agora você não é a sua história; aqui e agora não importa se as nuvens são claras ou escuras. Você permanece o mesmo diante da alegria e diante da tristeza. Estamos trabalhando para desenvolver essa equanimidade. Em outras palavras, significa se tornar Senhor da sua mente. E aqui e agora é onde está o campo da potencialidade pura; o campo das infinitas possibilidades. Porque se não existe dualidade, não tem um não para se contrapor ao sim; só existe sim. Ou seja, tudo é possível! E se devido à lei, alguma coisa não pode se manifestar, você aceita. Até porque você não vai querer algo que é contra a lei. O sim – que é uma expressão da vida em si mesmo – compreende as limitações do plano; está em harmonia com a natureza. O sim é uma expressão da natureza. A natureza do ser.

Vamos seguir praticando a auto-observação. Vamos seguir a prática de agir a partir da presença e consequentemente expandindo o conhecimento que nos faz Senhores de nós mesmos. Conhecimento e prática caminham juntos. E assim vamos aos poucos aprendendo a nos compor dentro da luz; reaprendendo a linguagem do amor e do êxtase.

Concluo dizendo: Lembre-se de voltar para o momento presente. Percebeu sua mente sendo arrastada, traga-a de volta. Antes que a mente entre em decadência, traga ela de volta. Você deve aprimorar a sua auto-observação para identificar o momento em que a mente está entrando em decadência e você traz ela de volta. Esse é o trabalho! Que em outras palavras eu posso dizer também: Livre para amar. Compreenda essa frase: Livre para amar. Estando na presença você está livre para amar. Mas, quem é você mesmo? Quem é você? Talvez possamos encarara isso que fazemos aqui como um jogo. O nome do jogo é: “Quem sou eu?”.

(Os músicos tocam o mantra HARE KRISHNA)

E vibrando em Krishna, respondo à pergunta: Quem sou eu? Eu sou o amor puro dos amantes que nenhum mortal pode proibir.

Abençoado seja cada um de vocês. Que você possa fluir através do amor e da sabedoria. Até um próximo encontro.

NAMASTE

 

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