Sri Prem Baba: A devoção é um fenômeno que a mente jamais compreenderá. Eu o convido a se recolher por um instante em silêncio. Respire suave e profundamente pelas narinas. Permita-se esvaziar-se de toda expectativa, de todo desejo. Permita-se relaxar na calma do seu coração, de onde você simplesmente testemunha o fluxo da impermanência que se manifesta através de pensamentos, emoções e sensações. Deixe passar. Coloque sua atenção na escuta do silêncio, que a tudo permeia, é permanente e, às vezes, é rompido por algum som. Acolha esse som, não se oponha a ele. Ele sempre passa. Ao colocar a atenção na escuta do silêncio, sua percepção se amplia e você experiencia calma, relaxamento e, ao mesmo tempo, atenção. Quando sentir, lentamente abra os olhos. Vamos dar continuidade aos nossos estudos.

Prometi continuar hoje um estudo iniciado ontem. Estávamos desenvolvendo a compreensão a respeito de alguns quadrantes da consciência que se assemelham aos porões de uma casa. Se comparamos nossa estrutura psicofísica a uma casa, essa casa tem porões que guardam coisas que, na grande maioria das vezes, não nos lembramos. São coisas que não sabemos o que fazer com elas, mas que de alguma maneira mantemos guardadas e, sem que percebamos, nos influenciam. Estávamos navegando nesse quadrante conhecido como sombra, nossa parte escura. Escura porque não tem luz, não tem consciência. São partes da nossa personalidade que não conhecemos e, por isso, roubam a cena. São impulsos inconscientes que tomam nosso corpo e nos levam para direções que, muitas vezes, conscientemente não desejamos ir. Não conseguimos evitar justamente porque desconhecemos essas forças. Eu tenho dito que você pode conhecer 99% de si, mas se 1% de você está na sombra, é suficiente para te derrubar, porque você não enxerga.

Essas partes de nós que estão nos porões do inconsciente estão a serviço de nos proteger, são protetoras. Trata-se de um sistema de defesa que foi desenvolvido em algum momento em que estávamos realmente muito machucados. Muitas vezes acreditávamos, em algum grau, até mesmo não ser possível sobreviver dessas experiências dolorosas – que eu tenho chamado de choques de dor, choques de humilhação, de exclusão, de abandono, de rejeição e traumas. Tais experiências às vezes se deram de uma única vez, às vezes se deram um dia após o outro.

Para suportar a experiência de dor foi necessário desenvolver alguns mecanismos de proteção. Nosso mecanismo psíquico acabou desenvolvendo venenos para nos proteger da ameaça e, ao mesmo tempo, passou a nos envenenar. Esses mecanismos de proteção, ou venenos expelidos para nos proteger dos choques de dor, são o que conhecemos como maldade. Essa maldade, que também pode ser mapeada, tem diferentes formas de atuação e uma mecânica bem específica. Ontem nós falávamos de três diferentes mecanismos ou três diferentes aspectos dessa maldade humana. Três venenos ou três mecanismos de defesa. Falávamos da gula, da preguiça e da luxúria. Mesmo que eu não tenha denominado dessa maneira, era disso que estávamos falando.

A gula é a compulsão e a voracidade com a intenção de amortecer uma ebulição de sentimentos. Uma voracidade por fazer, comprar, falar, se masturbar, por internet e tantas outras, isso é gula.

A preguiça é uma paralisação diante daquilo que precisa ser feito. Ela pode se manifestar de uma forma passiva, quando você se deprime e não consegue se mexer, ou quando você usa a gula e faz compulsivamente tudo, menos aquilo que precisa ser feito. Isso acontece porque você não consegue nem enxergar aquilo que precisa ser feito. Você ocupa o seu tempo fazendo, fazendo e fazendo, mas como uma fuga de si mesmo.

A luxúria é uma distorção do amor, na qual você usa a energia sexual para exercer domínio, para fazer do outro um escravo para atender seus caprichos e suas expectativas. E, quando essas expectativas não são atendidas, essa energia sexual se transforma em raiva.

É disso que falávamos. Algumas perguntas ainda ficaram no ar e eu fiquei de respondê-las hoje. Então;

Pergunta: Querido Prem Baba, sobre o assunto do fazer compulsivo, é necessário parar, respirar e esperar. Me preocupo em sair desse extremo e cair no extremo da inércia e na preguiça paralisante. Como perceber que estou caindo nessa armadilha?

Sri Prem Baba: Compreenda que o fazer compulsivo e a inércia são extremos de uma mesma coisa, nos dois casos existe uma fuga de algo. Eu concordo que, às vezes, o fazer também pode ser utilizado como uma medicina. Especialmente se a pessoa está atuando no aspecto da paralisia, às vezes se mover pode ser um remédio, mesmo que não tenha uma exata consciência do porquê ela estar se movendo. Nesse caso ela está consciente apenas de usar o movimento para sair da inércia porque sabe que a inércia é mais perigosa que esse movimento. Então, nesse caso, é positivo ao menos você fazer exercícios, usar o corpo de alguma maneira, fazer coisas no mundo, mesmo que ainda inconsciente do propósito. Porque, pelo menos, você está criando uma fricção, criando possibilidades de percepção. Nesse movimento, se você está atento, especialmente aos sinais, é possível que você consiga achar o fio da meada. Ele que vai te tirar desse emaranhado de sentimentos suprimidos que está, ou te fazendo paralisado, ou te fazendo agir compulsivamente sem saber por que e nem para que.

Então, independentemente do aspecto da preguiça que você esteja lidando, o caminho é você querer ver o que está negando. Porque, se tem preguiça, quer seja no aspecto passivo ou no ativo, existe negação. Tem algo que você está negando, negando ver e negando aceitar. Compreenda que isso é muito natural, todos nós carregamos partes com as quais não chegamos a um acordo. Todo ser humano carrega em si partes que, de alguma forma, se envergonha. É claro que, às vezes, essas partes podem estar gerando muita dificuldade para a sua vida.

Eu acabei não trazendo as perguntas de ontem, mas me lembro da pergunta final, que abriu uma série de caminhos. Era a pessoa perguntando: “Por que eu traí meu companheiro que amo tanto?” Era algo assim. Por que uma pessoa escolhe trair o outro e, consequentemente, se trair? Por que uma pessoa escolhe, de alguma maneira, usar um mecanismo de defesa x ou y? Porque ela foi condicionada a se defender de uma determinada maneira. Ao se sentir ameaçada – ameaçada a reexperimentar a dor original que criou o mecanismo de defesa – ela já usa esse mecanismo de defesa. No caso da preguiça, ela está negando alguma coisa que a faz esbarrar nesse núcleo de dor. E, para evitar encostar nesse núcleo de dor, ela usa aquele mecanismo de defesa que foi condicionada a usar, e sabe que funciona. Porque funciona, amortece e protege.

No outro exemplo, com a pessoa que usou a luxúria, ela também está se protegendo de alguma coisa, também está negando algo. O que você está negando? O que te impede de falar a verdade? O que te impede de fazer as coisas na clareza do dia? O que te impede de ser transparente? O que te impede de ser íntimo de verdade? O que te impede de chegar para o seu companheiro e falar: “Olha, eu estou sentindo atração por fulano ou por sicrana?” O que aconteceria? Talvez você tenha medo. Talvez você tenha medo da verdade, medo das consequências, medo de perder o outro, medo de ficar sozinha. Isso é um aspecto, uma possibilidade, mas as possibilidades são muitas!

Você pode estar escolhendo trair o outro para machucá-lo. Você pergunta: “Por que eu traí meu companheiro que amo tanto?”. Eu acredito que você ame muito, mas não sei se é tanto assim. Porque, se amasse tanto assim, você o colocaria nessa situação? E o mesmo serve em relação a você. Você se ama, mas será que se ama tanto assim para não se colocar nessa situação? Porque é uma situação que vai gerar muito sofrimento. Claro que tem prazer, mas é um prazer que vem junto com o proibido, vem junto com o escondido e com uma mentira. Ou seja, você está se privando da sua liberdade. Tudo bem, você vai lá e come aquele docinho, mas tem que ser escondido, ninguém pode ver. Porque se alguém ver, o mundo acaba. Da mesma maneira eu te pergunto: o que você está negando? Eu não estou aqui falando de certo e errado, porque às vezes está certo você comer um docinho escondido. Mas, porque eu falo isso? Porque cada um sabe onde o calo aperta. Cada um só dá o que pode. Está lá a pessoa diabética, mas comendo açúcar escondido. É o que ela consegue fazer, mas compreenda que existe um conflito que está na sombra. Compreende que tem a negação de alguma coisa? Têm pessoas que vão passar a vida com esse núcleo de sombra, porque não estão querendo ver. Diferente de você que está aqui me perguntando e querendo saber. Você está me perguntando: “O que me move nessa direção?”

Eu dei um tempo de ontem para hoje justamente para te propiciar a experiência, para que você possa encontrar a resposta para essa pergunta. Porque uma coisa é eu te dizer: “Você traiu por conta disso”, outra coisa é você perceber, você ver e sentir: “Eu traí porque eu amo mas também odeio meu namorado, e eu quero me vingar”. Porque se você não está sendo movido por uma vingança, você não vai trair o outro. Se você não está se vingando de si mesmo, ou seja, se você não tem auto-ódio, você não vai comer uma coisa que te adoece e te machuca. Estou falando de sadomasoquismo. Estou descrevendo mais uma vez outros aspectos do círculo vicioso do sadomasoquismo.

Você me pergunta: Querido Baba, como unir amor e liberdade numa relação?

Sri Prem Baba: Se libertando do círculo vicioso do sadomasoquismo. Como você faz isso? Passo número um: tomando consciência dele. Você não pode eliminar uma coisa que você não conhece, que está na sombra e você não enxerga. Primeiro você tem que enxergar, e então você pode fazer alguma coisa a respeito. O passo número dois é estudar mais profundamente, compreender as relações de causa e efeito. Por que você está escolhendo se colocar nessa situação? Por que você está escolhendo se maltratar e maltratar o outro? Por que você está usando esse mecanismo de defesa? Por que você ainda mantém esse protetor na idade adulta? Porque tem uma parte em você que ainda não cresceu, está trancada em negação. Você tem que dar permissão para essa parte crescer, e você faz isso olhando para ela. Tem que ir lá naquela criança que foi abusada, humilhada e excluída, acolhê-la. Dizer que agora ela pode crescer, que ela não precisa mais usar esse mecanismo de defesa, que ela não precisa mais usar a gula, a preguiça, a luxúria ou seja lá qual for o mecanismo.

Eu tenho sintetizado esse círculo vicioso do sadomasoquismo falando que ele é feito de ódio e medo. Embora tenha muito mais coisas – orgulho, obstinação e muitas outras coisas –, na gênese é medo e ódio. Então você me perguntou como unir amor e liberdade numa relação: é eliminando o medo e o ódio da relação. E você elimina o medo e o ódio da relação eliminando o medo e o ódio de si mesmo. Especialmente aqueles pontos de medo e ódio que se manifestam através da relação, porque a relação aperta alguns botões específicos, aciona alguns medos específicos e algumas manifestações específicas do ódio. Olha nesse exemplo anterior: essa pessoa usou um aspecto do ódio, que é a vingança, e traiu o companheiro. E talvez seja uma surpresa para você isso que eu estou falando. Talvez você questione: “Será que tem vingança? Talvez não. Eu só senti atração pelo outro. Foi uma atração inexplicável, uma atração fatal. Fui tomado e não tive o que fazer. Isso é divino”. Eu lhe digo que também é divino, mas tem uma distorção aí. Tem uma distorção do divino, porque gera sofrimento. Se gera sofrimento, tem distorção. Acho que essa é uma forma mais simples de entender essa matemática, senão você é absorvido pela ilusão. Um dia um devoto me perguntou: “Mas o que é ilusão?”. Ilusão é sofrimento. Mesmo que você esteja tendo rompantes de êxtase nessa relação, tem sofrimento. E tem sofrimento porque tem culpa, tem mentira e medo.

Eu sinto que toda esta conversa nos leva a refletir a respeito do porquê evitamos a verdade. O que estamos negando e, por conta disso, precisando usar o mecanismo de defesa? É assim que vamos arrumando um porãozinho. Às vezes é um porãozinho e às vezes é um grande porão! Mas, independentemente de ser pequeno ou grande, esse é o caminho para poder arrumá-lo, o caminho para iluminar a escuridão que te habita. Qual é o primeiro passo para você iluminar uma sala escura? Acender a luz. Mas como você e por que você vai se mover em direção ao interruptor? Porque você reconhece que está na escuridão, e ela começou a te incomodar. Se não, você fica no escuro. Mas se você está no quarto escuro, reconhece e começa a se incomodar de estar na escuridão, aí você se move em direção ao interruptor e acende a luz. Assim é no seu processo interior. Quando você toma consciência das suas insatisfações, significa que você está começando a se mover em direção à sua liberdade.

Isso é um processo, estamos nos movendo. Estamos indo, eu diria que estamos indo muito bem. Vejo que estamos indo bem, inclusive pela tônica das perguntas. Já não tem uma carga grande de acusação: “Ah, é o outro, é o outro, é o outro”. Não, você já está conseguindo ver que o negócio é com você. Que, se está com ciúme, o problema é seu. Que, se está com inveja, o problema é seu. Que, se está querendo se vingar, o problema é seu. Ótimo! Considero uma medida de sucesso, porque estamos desenvolvendo autorresponsabilidade. Você está realizando que você está onde se coloca. Que, se você diz não, pode dizer sim. Ótimo! Aos poucos vamos aprendendo a governar a nós mesmos ao ponto de, se quero ir para a direita, eu vou para a direita. Enquanto tiver uma parte em você querendo ir para a direita, mas outra te levando para a esquerda, tem um ajuste para fazer.

Muito bem. Vamos seguir nossa jornada.

Abençoado seja cada um de vocês. Que possamos nos comprometer com a verdade em todas as suas dimensões.

Até um próximo encontro.

NAMASTE

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